quinta-feira, 26 de novembro de 2009

AUSÊNCIA



Há pouca vida no meu tédio
Há muita gente na minha solidão
 Há pouco sentido na minha realidade
Há muitos abismos em meu caminho
Há pouca liberdade na minha fuga
E muito ontem no meu amanhã.


(Ícaro Martins)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

MAIS UM DIA...

Parto em busca de mergulhos no escuro, numa neblina sem nuvens, num mar sem sal
Procuro armas de fogo no meio do céu lacerante de cores contínuas
Que desaparecem sem se saber para onde foram.
Vejo a distorção da realidade em filtros de som que não se ouvem
E em filtros de dor fingida baseada em pura graxa sem brilho
Que implicamos no nosso ser pensando que assim somos melhores...

Percorri estradas nunca vistas numa solidão atroz...
Vejo uma cidade destruída
Perante o meu desejo constante
De não mais sentir o coração querendo saltar pela boca
De tanta ansiedade e sofrimento
Causados pelas guerras mentais que se repetem diariamente.

sábado, 26 de setembro de 2009

INSÔNIA


Em uma mente insone pensamentos insanos
Sombras e sobras não estão mais ao alcance
E antes que no peito o coração descanse,
Colhem-se os frutos do desprezo desses últimos anos.

Lembranças vivas de sonhos mortos
Sem trégua, consomem o juízo,
Trazendo um desalento conciso
Tal qual a triste dança de anjos tortos.

Suores noturnos de ansiedade
Trafegam sobre o corpo trêmulo e ocioso
Constelações ocultam-se num céu nebuloso,
Ignorando uma insistente saudade.

Sem anjos, sem estrelas, sem norte e sem chão,
Num vazio interminável, a alma agoniza.
A dor no peito permanece e eterniza,
Diante dos fatos, assume-se a rendição.
.
(I. Martins)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

ESTÁTUA DE SAL


Olhando para trás,
Vejo as ruínas crescendo ao meu redor.
O tempo não cura as feridas da alma.
Estou cada vez mais longe de mim...
E brevemente,
Não poderei mais me alcançar.


(I. Martins)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

INFELIZ


Alma viúva das paixões da vida,
Tu que, na estrada da existência em fora,
Cantaste e riste, e na existência agora
Triste soluças a ilusão perdida;
Oh! tu, que na grinalda emurchecida
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;
Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e pesar negro e profundo,
Esconde a Natureza o sofrimento,
E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.
.
(Augusto dos Anjos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

QUERIDA MORTE

Tanto sentimento pra nada...
O coração esmagado no chão.
Ouço o silêncio gritando dentro de mim
E o que me resta é a solidão.

Você é sempre bem-vinda,
No auge da dor, nos dias vazios.
Eu quero ver a sua face
E te encontrar num lugar calmo e sombrio.

Você é sempre querida,
Quando se tem um corpo enfermo e uma alma vã,
Quando se acumulam as decepções,
Quando se tem desesperança do amanhã.

O que eu vejo
Não me agrada...
O que eu ouço
Não me diz nada...
O que eu desejo
Ficou pra trás...
E quem eu era
Já não sou mais...

Você é sempre querida,
Quando me drogo com minha tristeza
Quando sou vencido,
Pela própria fraqueza...

Você é sempre bem-vinda,
A qualquer hora, em qualquer lugar
Estou regando com lágrimas
Onde eu irei descansar.

(I. Martins)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ESCURIDÃO


Hoje, mais uma vez, morri
Sigo a mesma rotina, num atalho interminável...
O tempo nos abre os olhos, mas nos faz ficar mudos.

Não há mudanças diante da escuridão...
Continuo engulindo a dor
E vomitando o tédio em cima de olhares distantes...
Ainda tento ir em frente,
Mesmo sem saber a direção certa...

Surgem diariamente lembranças do que não vivi
Enquanto uma face desfigurada num espelho quebrado,
Um olhar reprovador me encara, expondo não só a minha fraqueza,
Mas também a percepção de que não há mais nada aqui.

(I. Martins)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

À PROCURA DO "EU" (PARTE 8)


AQUELE QUE PODERIA TER CONTINUADO A VIVER
AQUELE CUJO CORAÇÃO PODERIA ESTAR INTEIRO
AQUELE QUE PODERIA TER SEGUIDO E ESQUECER
AQUELE QUE NÃO PODERIA TER SIDO TÃO VERDADEIRO.

AQUELE QUE VOCÊ DESPREZOU POR UM MOMENTO
MOMENTO ESTE QUE FICOU ETERNIZADO
AQUELE QUE JÁ PASSEOU ENTRE SEUS PENSAMENTOS
AQUELE EM QUE VOCÊ PODERIA TER CONFIADO
.
AQUELE EM CUJOS OLHOS VOCÊ PODERIA TER POSTO BRILHO
OU DELES LÁGRIMAS PODERIAM NÃO TER CAÍDO POR TI
AQUELE QUE PODERIA ATÉ TER SIDO O PAI DOS SEUS FILHOS
AQUELE QUE FOI EMBORA SEM DE NINGUÉM SE DESPEDIR.

AQUELE CUJA ESPERANÇA PODERIA NÃO TER SIDO DESTRUÍDA
AQUELE QUE PODERIA ESTAR ISENTO DESSA DOR
AQUELE QUE PODERIA TER ACHADO O RUMO DA VIDA
AQUELE QUE AINDA PODERIA ACREDITAR NO AMOR.

.
(I. Martins)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

À PROCURA DO "EU" (parte 7)

( TUDO DO NADA II)

SOU UMA ILHA FORA DO MAPA

SOU UM CAMINHO POR ONDE NINGUÉM PASSA

SOU UM LIVRO QUE NINGUÉM LÊ

SOU UMA PAISAGEM QUE NINGUÉM VÊ

SOU UMA MÚSICA QUE NINGUÉM QUIS OUVIR

SOU UM AUSENTE QUE NINGUÉM VIU PARTIR

SOU UM JARDIM COM FLORES MORTAS

SOU UM QUARTO FECHADO COM O CADEADO NA PORTA

SOU UMA GOTA D'ÁGUA EVAPORADA

SOU O MÍNIMO DE TUDO, SOU O MÁXIMO DO NADA.

SOU A VERSÃO DESCONHECIDA DA HISTÓRIA

SOU UMA MANCHA EVANESCIDA EM SUA MEMÓRIA

SOU UM SER ISOLADO, CEGO, SURDO E MUDO

SOU O MÁXIMO DO NADA, SOU O MÍNIMO DE TUDO.


(I. Martins)


quinta-feira, 23 de julho de 2009

"POUCA VIDA"


Há pouca vida no meu tédio
Pouco dia no meu desperdício
Pouca proteína no meu lixo
Pouca realidade na minha frente
E tempo demais
Gente demais
Há pouca arte no meu plástico
Pouco sorriso no meu fingimento
Pouco descanso no meu sono
Pouca alegria nas minhas distrações
E cores demais
Brilho demais
Há pouca memória no meu vazio
Pouca velocidade na minha asfixia
Pouco metal nos meus escombros
Pouco mais do que devia
E tantos esconderijos
E tantos espelhos...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

No paraíso das águas,
Me paraliso nas mágoas.

(I. Martins)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

E. U.


 

sábado, 4 de julho de 2009

SEM AMANHÃ

O Sol se põe...enquanto vou falecendo
Mais uma vez, esbarrei com a velha dor...
Fecho os olhos, procuro a luz, mas ainda estou aqui.

E esse aperto no peito...
Solidão que sufoca...
Vazio que satura...

A noite passa agonizante
Sonhos perdidos na madrugada interminável
Eu e meus pensamentos numa batalha sem trégua.

E essa dor no peito...
Solidão que maltrata...
O amanhã padece.

(I. Martins)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ETERNA MADRUGADA


Não chore em meu túmulo...
Eu não estou lá...
Eu apenas estou dormindo...
Numa eterna madrugada.
Estou a mil ventos que sopram.
Eu sou a luz do sol sobre os grãos
Que não chegaram a ser frutos.
Eu sou a suave chuva de outono...
Quando você acordar de manhã na calmaria,
Eu vou ser a tempestade que chegará em seguida...
Eu sou o brilho de alguma estrela
Ofuscado por nuvens negras...
Não vá lá ao meu túmulo para chorar...
Eu não estou lá.
.
(I. Martins)

sábado, 27 de junho de 2009

DO VAZIO À ESCURIDÃO

Estamos sozinhos... Perdidos em pensamentos suicidas. Tentando exorcizar nossos tormentos, mas eles sempre regressam.
O que a vida fez com a gente? Ou o que a gente fez com a nossa vida? A minha parece que foi extinta. Passou a ser uma insignificante existência.
Cansei desses constantes momentos, em que o passado me assombra, quando a dor me sufoca, onde o resto do mundo torna-se um grande vazio.

Nesse instante, não há mais nada a fazer... Nada nos resta... Há não ser o passar angustiante do tempo... Estamos seguindo do vazio à escuridão.
(I. Martins)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

SOCIEDADE


(Paródia de “O Pulso” de A. Antunes/M. Fromer/T. Bellotto)

EGOÍSMO, MELANCOLIA, ORGULHO, INDIFERENÇA.
MAU HUMOR, MENTIRA, HIPOCRISIA, OFENSA.
RANCOR, IGNORÂNCIA, INSENSATEZ, INCOMPETÊNCIA.
GROSSERIA, APATIA, DESACATO, VIOLÊNCIA...
 E AINDA HÁ CONVIVÊNCIA...
.
PRECONCEITO, INCERTEZA, INVEJA, TRAIÇÃO.
RAIVA, ÓDIO, VINGANÇA, OMISSÃO
CISMA, CINISMO, INDESCÊNCIA, DESORGANIZAÇÃO.
IMPUREZA, IMPACIÊNCIA, IMPRUDÊNCIA, INCOMPREENSÃO...
E AINDA HÁ MULTIDÃO...
.
INCONVENIÊNCIA, ENGANO, REPUGNÂNCIA, VAIDADE.
ESTUPIDEZ, INDECISÃO, CORRUPÇÃO, FALSIDADE.
INSULTO, COVARDIA, OPOSIÇÃO, IMPUNIDADE.
ARROGÂNCIA, PREGUIÇA, MONOTONIA, INABILIDADE...
E AINDA HÁ SOCIEDADE...
.
(I. Martins)

sábado, 13 de junho de 2009

À PROCURA DO "EU" (parte 6)

MORTO, ENTERRADO E ESQUECIDO

NÃO FAÇO PARTE DO SEU PRANTO
GERALMENTE ESCONDIDO
NÃO FAÇO PARTE DO SEU PESADELO
DIARIAMENTE REPETIDO
NÃO FAÇO PARTE DOS SEUS SONHOS
NÃO REALIZADOS
SÓ FAÇO PARTE DE UM PASSADO
MORTO, ENTERRADO E ESQUECIDO.

NÃO FAÇO PARTE DOS SEUS DESEJOS
FREQÜENTEMENTE REPRIMIDOS
NÃO FAÇO PARTE DOS SEUS SUICÍDIOS
DIARIAMENTE COMETIDOS
NÃO FAÇO PARTE DOSS SEU PASSOS
VAGAMENTE DESNORTEADOS
SÓ FAÇO PARTE DE UM PASSADO
MORTO, ENTERRADO E ESQUECIDO.

(I. Martins)

terça-feira, 9 de junho de 2009

"RESTOS DE ILUSÕES"


Pelo caminho,
Apenas restos de ilusões...
Misturados a pedaços de sonhos destruídos...
Lembranças do que não aconteceu...

Escombros de planos
E promessas incendiadas...




domingo, 7 de junho de 2009

QUASE


Quase todos os dias,
Sinto falta de mim mesmo
Uma parte que sumiu,
Quase impossível de recuperar.
Quase não consigo suportar
O caminho que insisto em seguir:
Sonhos e sorrisos quase inexistentes,
Quase impossível ser feliz.
Quase nada se diz,
Quase tudo eu recordo
Quase sempre me mato
Quase sempre longe de mim.

Quase todos os dias,
Satirizado pela própria insanidade
Quase tudo é ilógico,
Quase tudo é só saudade.

(I. Martins)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

NOSSA SOLIDÃO



Haverá alguém que, ao menos uma vez, não tenha sentido um travo amargo na boca, um nó na garganta, o coração magoado, o peito sufocado na dor de um estranho vazio, a vontade de olhar uma outra face, o silêncio pesado que arrasa a mente ou a necessidade de estar com alguém ausente? Já lhe aconteceu não ter a quem perguntar uma dúvida incômoda e dizer aquilo que simplesmente gostaria de desabafar? Já teve a sensação de não existir quem o compreenda e aceite tal como é nem quem esteja disposto a ajudá-lo? Já se sentiu desprotegido, sem esperança ou depreciado por todos? Então, conhece o que pode ser a solidão: a fria e sombria solidão.

A solidão, a ansiedade, a dor, a culpa ou a morte constituem etapas no nosso percurso humano e têm sempre um significado, mesmo que tal nos custe a admitir. Precisamos olhá-las e entendê-las, assim como reparamos naquilo que gostamos, amamos, nos satisfaz ou alegra. Elas não são indignas nem têm forçosamente que assustar. Senão, encontrar-nos-ão sempre num certo dia, desprevenidos e impreparados.

Mesmo as experiências mais dolorosas, se positivamente encaradas, convidam-nos a ponderar quem somos, o que queremos e para onde vamos, permitindo, com algum esforço, assimilar uma experiência e adquirir uma maior auto-consciência. A sós, entre a multidão

Em diversos momentos, se estivermos atentos, percebemos o quão frágeis, vulneráveis, influenciáveis e fracos somos - como poeira das estrelas. Deixamo-nos, tantas vezes, levar pela mutabilidade das circunstâncias e das situações, pelos nossos instintos, por modas, tendências sociais ou qualquer outro tipo de pressão que os outros nos exercem. Invocamos direitos, autoridade e poder mas, na realidade, por ignorância, incapacidade ou falta de empenho, esquecemos as nossas responsabilidades e deveres - principalmente aquele que é o primordial e mais sagrado desígnio: Ser! Talvez por isso se diga que “mais vale ser do que parecer”. Entenderemos alguém ou alguma coisa se não nos questionarmos, se ignorarmos o que é importante ou incomódo, valorizando o que é secundário? Como será então possível não nos sentirmos sós? O que poderá preencher-nos? (...)

(Fragmentos - I. Martins/A. Oliveira)

domingo, 31 de maio de 2009

AINDA...


Estou infinitamente distante... bem aqui... ao lado...
Andando em círculos...
Nada consegue se erguer com alicerces arruinados.
Não se vai para frente, quando não se consegue parar de olhar para trás.
Às vezes, caio em pedaços, golpeado por pensamentos e lembranças...
O tempo tem passado e há certas coisas que ainda não foram apagadas...
.
(I. Martins)

domingo, 24 de maio de 2009

"BRISA"


Acendi uma fogueira para me fazer companhia e para me aquecer
E enquanto o fogo dança a música do vento,
O vinho barato me traz lembranças do que não aconteceu.
A brisa gelada compete com o calor do meu peito,
Onde habita algo que ainda bate descompassado e em vão.
As horas me fazem envelhecer meses...
Ouço vozes e sorrisos distantes
Quase abafados pelo barulho das ondas.
Pessoas aparentemente felizes em um mundo distante...
E enquanto passo toda a madrugada em claro,
Assistindo ao horizonte quase invisível,
Espero a escuridão pela manhã.

(I. Martins)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

ZINES


POEZINE - Distribuído em qualquer evento alternativo ou underground da capital alagoana.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SENTIMENTOS ESCUROS


SOMOS SERES DE SENTIMENTOS ESCUROS,
FANTASMAS NOTURNOS QUE CHORAM,
PELAS TRISTEZAS QUE OS DEVORAM,
NOS PENSAMENTOS OBSCUROS

NOSSAS ALMAS MELANCOLICAS,
VAGAM PELA NOITE SOMBRIA,
EM BUSCA DA ALEGRIA ILUSORIA,
PERDIDA NAS SOMBRAS EXOTICAS

VIDA DESTRUIDA POR DESILUSÕES...
POR FAVOR NÃO TENHA MEDO
DE UMA ALMA Q É AMALDIÇOADA E TRISTE

TRAJANDO SEMPRE UM AUTO-LUTO,
SOMOS O ESTRANHO FRUTO,
DO MUNDO FELIZ Q NÃO EXISTE.
.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

RESTOS DE MIM


Nesse exato momento, vagueio sozinho quase invisivelmente no meio da multidão... Não há esperança... O que há são hipócritas que acreditam em suas próprias mentiras. Existem pessoas que compram suas alegrias instantâneas a prazo, enquanto outras vasculham seu lixo para sobreviver.
Aos poucos, continuo distanciando-me da vida... Logo sairei do caminho para o mundo passar...
Às vezes, sinto-me como um feto abortado do ventre do mundo, correndo de olhos fechados pela contramão...
Pelo caminho, apenas restos de ilusões, misturados a pedaços de sonhos destruídos... escombros de planos e promessas incendiadas...
Ao meu redor, partículas de ilusão, cacos de uma história, lembranças que corroem a alma... estrategicamente posicionadas na minha mente para me destruir dia após dia... Pior que sofrer com a queda é continuar caindo...
Sou agora uma trajetória interrompida... Um desvio que se tornará paralelo a uma realidade que um dia existiu... Um atalho interminável... Um erro de cálculo... Um borrão de uma pintura que um dia eu projetei...
Contudo, continuo aqui... carregando no peito uma bomba que explode em silêncio.
.
(I. Martins)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"COTEDIANO" - COTIDIANO DO TÉDIO


Janela: Luz.
Ação.
Corta!
Preciso mesmo me levantar?
...
Bem... fazer o quê?
Entre a rotina...
Café... Tv...
Leitura: Algo do Millôr, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos...
Prazer cerebral...
Cansei...
Adiante:
Regressão.
Solidão.
Sentimento de abandono.
Música: Joy Division, Radiohead, Placebo...
Minha vida passeando pelas melodias...

Minha tristeza nas letras dessas canções...
Depressão momentânea.
Vazio.
Chuveiro.

Vinho.
Lágrimas.
Chamada telefônica não atendida.
Desejos reprimidos.
Tarefas domésticas incompletas.
Internet.
O tempo passa se arrastando
Envelheço uns 10 anos em poucos dias...
E hoje,
Mais um porre.
Lembranças do que não aconteceu
Trazendo minha queda infinita...
Nenhuma companhia.

Músicas distantes...
Tristeza por perto...
Luzes apagadas.
Olhos fechados.
Noite adentro me esqueço...
Manhã seguinte...
Luz.
Janela.
Ação...


(I. Martins)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

MEU MUNDO


Escrevo mil versos num grão de areia
Fico horas e horas de costas para o mar
Ando em círculos na lua cheia
Conto as estrelas que irão se apagar

Movo muralhas, uno meus pedaços
Jogo fora a vida que nunca quis
Esqueço o fiz, apagando os fracassos
Invento meu mundo e vivo feliz.

Pinto o meu mundo com a cor da mentira
E com a mesma tinta, rabisco no céu azul
Faço um maremoto num cálice de vinho
E sigo sozinho, sem norte e sem sul

Toda vez que penso em você,
Estou ferindo meu espírito
Fecho os olhos ao alvorecer
E esqueço brevemente que existo

Vejo a felicidade despedaçada no chão
Arranco o meu mal, mas não pela raiz
Este poderia ser chamado de solidão

Invento meu mundo e vivo feliz.

(I. Martins)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

MOSAICO DE MIM

“Pedaços espalhados, partículas de ilusão
Cacos de uma história, partes sem sentido
Reunidas, dispostas, estrategicamente posicionadas
Tentativas inúteis de lógica quaternária
Olho de perto, vejo apenas lágrimas e angústias
Sorrisos e arranhões, mãos estendidas, carinho e dor.
Um pouco de luz, algo de fantasia, muita vontade de ser feliz
Em uma mistura surrealista, mágica, absurdamente aleatória
Busca incessante de felicidade equinócia
Me afasto e observo a grande composição multicor
Nos longos rios castanhos, os rastros da experiência...
Linhas claras de vida, e no olhar, o brilho da estrela(...)”

sexta-feira, 17 de abril de 2009

APARÊNCIA



Queria ter a força que, às vezes, alguém poderia supor que eu tivesse.
Queria ter a alegria que finjo demonstrar quando estou distraído.
Queria ter a sensatez e o ânimo que às vezes transmito, através de palavras que no fim nem convencem a mim mesmo.

Talvez quisera ter minha vida de volta.
Ou talvez quisera ter uma nova vida...

Talvez quisera ter uma vida de verdade.

(I. Martins)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

LEITO DE MORTE


DORMIR: Ensaiar para a morte.

ACORDAR: Adiar a morte.


(I. Martins)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

TANTO FAZ


DIAS DE APATIA... HÁ MUITO TEMPO, ESTAVA DESEJANDO ISSO
EM MINHAS ABENÇOADAS CÁPSULAS INDUTORAS DA FUGA,
ATRAVÉS DO ENSAIO DIÁRIO PRA MORTE.

HOJE APENAS SOBREVIVO... MAS JÁ ESTIVE BEM PIOR.
JÁ NÃO ESPERO MAIS O AMANHÃ, PORQUE SEI QUE ELE NÃO VEM.
E SE VIER, NÃO SERÁ BEM-VINDO.
MAS SINTO QUE NÃO FAZ MAIS SENTIDO FICAR SENTINDO...
ASSIM COMO NÃO FAZ SENTIDO CONTINUAR ESCREVENDO.

(I. Martins)

domingo, 5 de abril de 2009

INÚTIL MENTE


ISSO NÃO DEVERIA ESTAR ACONTECENDO...
MINHA MENTE ÀS VEZES EXPELE QUALQUER IDÉIA DE QUE ISSO TUDO É REAL.
SINTO QUE NASCI NO LUGAR ERRADO... NUM TEMPO ERRADO.
NÃO CONSIGO PROGREDIR PORQUE CONTINUO OLHANDO PARA TRÁS...
E MEUS PENSAMENTOS CORROSIVOS VÊM CABALEANDO EM MINHA CABEÇA
E TUDO AO MEU REDOR NÃO PASSA DE RUÍNAS...

EU PODERIA TER SIDO UM GRANDE ARTISTA (NUMA REALIDADE ALTERNATIVA)... OU SIMPLESMENTE UM BOM PAI DE FAMÍLIA... ESTRESSADO, MAS TALVEZ, FELIZ.

MAS NESSE MOMENTO, SINTO QUE MINHA VIDA SE EVAPOROU.

E SÓ ME RESTA O QUE É INÚTIL:
POESIAS E TEXTOS ESQUECIDOS EM PÁGINAS AMARELADAS PELO TEMPO;
DESENHOS E ARTESANATO QUE AOS POUCOS SE TORNAM LIXO;
IDÉIAS E PLANOS QUE SE PERDEM, SIMPLESMENTE POR NÃO SE REALIZAREM... TALVEZ POR INCAPACIDADE... TALVEZ POR DESÂNIMO... TALVEZ PORQUE AGORA NADA MAIS FAZ SENTIDO...
E O MAIS INÚTIL DE TUDO: UM CORAÇÃO DILACERADO... MAS QUE INSISTE EM BATER...

(I. Martins)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

ADEUS, MEUS SONHOS!


Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

(Álvares de Azevedo)

domingo, 29 de março de 2009

A PARTIDA


Sem despedidas,
Sem palavras ou carta... Estou partindo.
Sem olhar para trás...
Estou partindo.
Já escrevi dezenas de cartas pra ninguém,
Mas nem milhões de livros descreveriam o que sinto,
No fundo da minha alma.

Hoje meu sol nasceu negro... o ar está denso...
Há uma bomba que explode em silêncio em meu peito.
O tempo voa ao meu redor... envelheço e agonizo a cada instante... E o tempo só vem acumulando as minhas dores... Sinto que nunca vou me livrar dessa escuridão que me envolve...

Estou exausto... Cheguei ao meu limite.

Sem esperanças, estou partindo... levando toda a dor comigo...
Sem motivos, estou partindo...
Sim. Sem motivos... pra continuar aqui.

Estou partindo.

(I. Martins)

sábado, 21 de março de 2009

LÁ VOU EU...


Hoje estou retornando para o velho bairro. Depois de uma longa jornada que não serviu de nada.

Estava querendo fugir de algo, mas esse algo estava dentro de mim... então, foi tudo em vão... todas as paisagens, todos os porres, todas as distrações, reencontros com velhos conhecidos... Momentos de alegria instantânea... Pouco adiantou...

Volto para o mesmo marasmo. As mesmas reclamações e preocupações no meu lar levemente desfeito... a confusão do cotidiano... as velhas frustrações... Não demora muito e lá vou eu outra vez... Como se tivesse procurando algo para curar a minha dor... mas não há remédios no caminho... "o vento não sopra a favor de quem não sabe aonde ir"... Mas estou indo embora outra vez...

Com minha esperança totalmente desfeita, já não há mais procura... talvez mais uma fuga ilusória...de qualquer forma, lá vou eu... com o semblante tenso, aparentando ser mais velho que os anos que vivi... estou indo embora... e mais uma vez, sem saber meu último passo...
.
(I. Martins)

quarta-feira, 18 de março de 2009

AMANHÃ

Aqui eu sento e assisto a meu mundo desmoronando.
Eu grito por ajuda mas não há ninguém ao redor.
...Ninguém se importa afinal.
Sempre uma emoção, mas como posso explicar...?
Às vezes eu tenho que pensar comigo, isso é vida ou morte?
Estou vivo ou morto?
O relógio continua batendo, mas nada mais parece mudar.
Problemas nunca resolvidos apenas rearranjados
E quando eu penso sobre todo os momentos que tive,
Alguns foram bons mas a maioria ruim.
Eu procuro por personalidade e procuro coisas que eu não posso ver
...Não encontro esperança em nada novo e nunca tive nenhum sonho realizado.
Mentiras e ódio e agonia, através de meus olhos é tudo que vejo.
Se eu for chorar, você vai limpar minhas lágrimas?
Se eu for morrer, Senhor, por favor, afaste meus medos.
Antes que eu me afogue em tristeza, eu apenas queria dizer:
Como vou rir amanhã se não posso nem mesmo sorrir hoje?
.
(Trechos de "How Will I Laugh Tomorrow? by Suicidal Tendencies)

terça-feira, 17 de março de 2009



"O fim do mundo foi ontem.
Hoje estamos apenas vagando entre os seus escombros."

(I. Martins)




sábado, 14 de março de 2009

A QUEDA


Às vezes, encontro-me em desespero, como se atingisse o mais profundo ponto de um estágio depressivo, e outras vezes, estou apático, procurando me distrair com qualquer bobagem. Mas se no meio dessas bobagens, eu encontrar algo que desperte algum pensamento ou lembrança negativa, já era...

A queda nos mostra o quanto subimos e não aproveitamos a vista de quando estávamos lá em cima.
Mas acho que não foi o meu caso... Às vezes, tenho a impressão que me empurraram.

(I. Martins)

quinta-feira, 12 de março de 2009

LEMBRANÇA DE MORRER

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
(...)
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

(Álvares de Azevedo)

terça-feira, 10 de março de 2009

LAMENTAÇÕES

Uma vaga de aflição paira ameaçadora no mundo, carregando os inquietos que perderam a direção de si mesmos, vitimados pelas circunstâncias dolorosas do momento.
A insanidade conduz expressivo número de criaturas que agonizam ao sabor do sofrimento, buscando fugir da realidade dos problemas, com a aparência inspiradora de triunfadores nos patamares dos prazeres alucinantes.
Lamentar não é atitude saudável. Pelo contrário, produz deterioração dos conteúdos bons que ainda remanescem em muitas vidas e movimentam-nas, sustentando os ideais de engrandecimento humano.
A lamentação, qual ocorre com a queixa sistemática, é morbo portador de destruição, de desalento e morte. Mas torna-se quase inevitável quando se olha ao redor e ver o tempo destruindo o que ainda resta.

(D. Pereira Franco/Adaptação: I. Martins)

sábado, 7 de março de 2009

ENTRE O MAR E AS ESTRELAS


Olhando a imensidão do mar,
Percebo a nossa insignificância
Ao mesmo tempo, um vazio me invade a alma
E mais uma vez, sua lembrança me vem como as ondas,
Que se quebram na beira da praia...
Quebrando todo e qualquer indício de esperança
Que talvez ainda pudesse me restar
À noite, observando a luz das estrelas,
Sinto a escuridão que está presente em nossas vidas,
Ao mesmo tempo, uma idéia me toma a cabeça:
A minha existência neste mundo não tem sentido
E mais uma vez, sua lembrança me vem como uma nuvem negra
Que se forma e permanece sobre mim.

(I. Martins)

quarta-feira, 4 de março de 2009

O PONTO SEM VOLTA


“Passei do ponto sem volta. Sabe quando é isso? É o ponto, numa jornada onde demora mais voltar ao início que continuar até o fim. É como aqueles astronautas que se viram em apuros... estavam indo à lua e algo deu errado. Tiveram que voltar à Terra, mas tinham passado do ponto sem volta. Então, tiveram de dar toda a volta na lua para voltar e ficaram sem contato durante horas. Todos esperaram para ver se um bando de caras mortos numa lata iria surgir do outro lado.
Esse sou eu... Do outro lado da lua... sem contato... e todos terão de esperar até surgir.

(texto tirado do filme “O DIA DE FÚRIA”)

terça-feira, 3 de março de 2009

"DESERTO"

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu (...)

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada...

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

(Álvaro de Campos)

domingo, 1 de março de 2009

À PROCURA DO "EU" (parte 5)


Imensidão de coisa insignificante
Lotação de coisa vazia
Aproximação de algo distante
Ruínas de uma utopia.

(I. Martins)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites,
Não podemos crescer emocionalmente.
Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão,
continuaremos a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é necessário ser um.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

IMENSO MUNDO VAZIO


O MUNDO TODO É UM IMENSO VAZIO... CHEIO DE SERES DESUMANOS E EGOÍSTAS...
ENQUANTO PASSEIO LENTAMENTE PELO CAOS, VEJO PESSOAS CORRENDO SEM DIREÇÃO... PAGANDO CARO POR INSTANTÂNEAS FELICIDADES, QUE BREVEMENTE SE TRANSFORMAM EM FRUSTRAÇÕES, ENQUANTO SUAS ALMAS SÃO CORROÍDAS COMO FERRO VELHO OXIDADO.
ÀS VEZES, ACHO QUE NÃO PERTENÇO A ESSE MUNDO... ÀS VEZES, ACHO QUE JÁ MORRI, ANTES MESMO DE VIVER... (SE É QUE ISSO SEJA VIDA). ENTÃO, EU FICO ACHANDO QUE NÃO DEVERIA TER SAÍDO DO MEU QUARTO, COMO SE MAIS NADA ME IMPORTASSE... A BUSCA POR ESTABILIDADE PROFISSIONAL, MATAR-ME PARA GANHAR DINHEIRO PARA COMPRAR COISAS DAS QUAIS NÃO PRECISO PARA MOSTRAR ÀS PESSOAS AQUILO QUE NÃO SOU... A BUSCA DE UM SONHO... DE ENCONTRAR UMA PESSOA IDEAL... TUDO ISSO FICOU PARA TRÁS... COMO SE EU TIVESSE EM OUTRO NÍVEL DE VIDA (OU DE MORTE)... NEM ACIMA... NEM ABAIXO... TALVEZ, PARALELO.

HÁ MOMENTOS, QUE QUERIA ESTAR NUM HOSPÍCIO, TENDO ANTIDEPRESSIVOS E CALMANTES A ELIMINAR GRADATIVAMENTE A MINHA SANIDADE E, TALVEZ, COM ISSO, LIBERTANDO-ME DA DOR QUE O MUNDO DOS “NORMAIS” OFERECE.

OU ENTÃO, NÃO SUPORTARIA MAIS MANTER O MONSTRO PRESO DENTRO DE MIM E SAIRIA PELAS RUAS QUEBRANDO VITRINES, DESTRUINDO CARROS, INCENDIANDO LOJAS, PROVOCANDO ACIDENTES, OUVIR O SOM DOS FREIOS DE CARROS, AO ATRAVESSAR SEM OLHAR PROS LADOS E SER AMEAÇADO COM O SORRISO SARCÁSTICO NO ROSTO, COMO SE TIVESSE SENDO ELOGIADO... (NESSAS ALTURAS, NÃO HAVERIA DIFERENÇA)...
ATÉ QUE ALGUÉM, QUE SE ACHARIA NA SUA RAZÃO E DIREITO, SACARIA UMA ARMA E ESTOURARIA MINHA CABEÇA E EU CAIRIA NO CHÃO, SEM TER CHANCE OU TEMPO DE AGRADECER A ESSA PESSOA QUE ESTARIA DIANTE DE MIM, FURIOSO E CONFUSO, ASSISTIDO POR DEZENAS DE PESSOAS QUE QUERIAM TER FEITO O MESMO. (O MESMO O QUE? O QUE EU FIZ OU O QUE ELE FEZ?... FICA AÍ A DÚVIDA).

OU EM VEZ DISSO TUDO, EU TENTE ME ADEQUAR AO QUE SOBROU NO MEIO DOS ESCOMBROS DO QUE UM DIA FOI A MINHA VIDA E TENTAR VIVER COMO MAIS UM HIPÓCRITA, MENTINDO PARA MIM MESMO, FINGINDO QUE AINDA HÁ ESPERANÇA, TORNANDO-ME MAIS UM ESCRAVO DO MUNDO E MORRER DIARIAMENTE NUM IMENSO MUNDO VAZIO.

(I. Martins)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A FLOR E A NÁUSEA


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(C. Drummond de Andrade)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

NASCENDO E MORRENDO


Todos os dias, eu nasço e morro
Diante de mais uma dor
De mais uma decepção
De mais uma perda ou despedida
Diante de mais uma frustração.

Todo dia, eu morro e renasço
Diante de uma cena de exclusão
Diante de mais uma data significativa
Diante de um sentimento de inadaptação
Diante de uma lembrança corrosiva.

Diante de desejos reprimidos
Diante de mais um amanhã incerto
Diante de uma solidão infinita
Diante da percepção de que estás por perto.

Diante de uma tragédia pessoal
De um grito abafado implorando por socorro
Diariamente, vou morrendo e renascendo...
Mas diante de ti, eu apenas morro.


(I. Martins)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

HOJE...


Um dia a mais é um dia a menos... E hoje, mais do que nunca, o que eu desejava era o suficiente para eu não me sentir menos do que fui ontem.
Eu desejava uma trégua (com meus conflitos internos)... Algo que me fizesse acreditar que ainda estou vivo.
Eu desejava que os momentos de alegria instantânea pudessem se prolongar e fizessem com que fosse possível eu ter alguém para compartilhar os meus sonhos, reencontrar com a reciprocidade... Mas isso parece estar tão distante... como se a vida não me concedesse o direito de tentar ser feliz de novo.
Isso faz com que eu pareça não caber mais em mim ou como eu estivesse preso dentro de mim mesmo... Aliás, pareço não caber ou não fazer parte dessa realidade em que vivo: um pesadelo diário, onde as pessoas simplesmente te abandonam e se vão, sem se importarem com aqueles que, por alguma razão, ficaram para trás.
Vou seguindo num caminho tangencial ao que seguia, como vítima de uma escolha que não tive o direito de fazer.
Meus planos de papel viraram cinzas... Minha semente foi extraída da terra e jogada no asfalto e o único fruto que eu obtive tem sabor de angústia...
E tudo que me resta é a minha melancolia em forma de arte. Meus desenhos, ou traços de sonhos, minha poesia ou palavras escritas pra ninguém... rascunhos de pensamentos... que me fazem companhia no meu refúgio provisório.
Hoje , sinto-me excluído do mundo, esse imenso vazio... cheio de hipocrisia, de dor, injustiça e ganância.

Hoje todas as músicas são tristes... todos os casais me fazem sentir desprezível... todos os sorrisos me fazem sentir distante de mim mesmo.
Por que as pessoas são tão inconstantes ou momentâneas? Por que são tão fúteis, a ponto de ver e desejar apenas o que passa através da retina? Será que só eu sou vítima dos meus pensamentos ou refém dos meus desejos? Seria tão cômodo viver sem sentimentos...
Ainda tento disfarçar... Mas quando eu disfarço, eu me desfaço... e não é fácil depois tentar unir meus pedaços caídos no chão.

Chego até a desejar chegar ao fim do abismo, há tempos projetado em mim, ouvir o silêncio, ver a escuridão e me livrar dessa prisão sem grades em que me encontro.
E por que não dizer com todas as letras: desejar a morte? Pois ela não é a coisa pior do mundo. Há coisas bem piores.
Ter vivido sem nunca ter conhecido o amor é uma delas. Amar e sofrer por isso, a ponto de perder o ânimo é uma delas. Ter seus desejos despertados e logo reprimidos é uma delas. Sentir solidão em todos os aspectos é uma delas. Perder a fé em Deus ou em si próprio também é uma delas.

A morte é apenas a chave dessa prisão.

(I. Martins)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

OUTRA VEZ


Ela se foi... Levando consigo toda a minha alegria,
Todas as minhas promessas...
Mas ela as jogou no meio do caminho,
Onde o vento da saudade varreu tudo
E tudo se perdeu... Assim como eu me perdi...


Preciso viver de novo... antes que eu morra outra vez.
Fui deixado para trás e desde então, só tenho regredido...

Parei no tempo...
Cada hora parece ser um mês dentro de mim...
Mas cada ano que passa, parece ter sido apenas poucos dias, em relação ao que sinto,
Pois o tempo não está curando minhas feridas...

Ela se foi... há anos...
Mas pareço ouvir o seu adeus diariamente...
Ela se foi...
E mais uma vez eu vejo todos os meus sonhos nas mãos de outro alguém.

(I. Martins)