domingo, 14 de agosto de 2011

O SUICÍDIO FATAL DO CADÁVER MORTO

Havia, naquele cadáver ambulante, muito vigor mortício. Ele vagava por aí, pensando em parar de vez... mais uma vez. E então, pensou: "Se o amanhã vier, eu irei embora. O mundo ficou pequeno demais para nós dois."
Então, um dia, resolveu acelerar o processo de mortificação, obituando-se e necrofiliando-se.
Na semana seguinte, ele constatou que tinha dado tudo certo no seu velório. Apenas algumas pessoas não compareceram. Talvez, já estivessem mortas. Continuou a vagar... agora com outra perspectiva, como se vivesse numa eterna madrugada, com ecos de vozes conhecidas e ao mesmo tempo indescritíveis. Via trechos de sua morte antiga, passando como trailers, projetados na parede da sala, no labirinto da sua mente.
Não há fim nessa história... o desfecho é uma continuação que se faz na lógica do paradoxo da vida desse cadáver morto. Falecidamente, ele vivia de forma intensa. Um dia a mais era um dia a menos, assim como na vida de qualquer outro ser. Mas durante seu processo de decomposição cotidiano, ele viveu... ele enfrentou o suicídio diário, de cabeça erguida, pois não poderia baixar a cabeça com uma corda no pescoço. Ele se foi... mas está sempre por aqui... assistindo à sua própria ausência.

(Ícaro Martins)